.
.Se alguma vez tive uma sensação próxima do voo, não foi dentro de um avião.
Aquela que mais se lhe assemelhou foi, sem qualquer sombra de dúvida, a experiência do primeiro galope, montada numa égua branca, que nunca mais esquecerei.
A outra sensação de voo, com um friozinho na boca do estômago, foi o nosso primeiro salto. O obstáculo parecia-me intransponível e não foi.
- Não foi, sussurrei-lhe ao ouvido, banhadas [as duas] em suores animais…
.
.Não sei se montar um cavalo é o mesmo que andar de bicicleta [e nunca se perderá o jeito…]. O que é certo é, que nunca voltei a montar aquela égua, ou outro cavalo qualquer.
Andar de bicicleta, andei. De facto, não perdi o jeito.
.
.No entanto, não me parecem experiências comparáveis. Ninguém conversa com uma bicicleta [embora, tenha feito a manutenção da minha, quando era uma rapariga a ganhar aos rapazes da rua, em corridas desenfreadas, em que as minhas pernas longas demais eram uma vantagem, sem grande esforço, que me obrigavam a trocar pneus, mudar travões, alinhar a direcção e por aí…].
.
.Não. Ninguém conquista a confiança e o respeito de uma bicicleta, como se conquista uma égua branca, nervosa e desconfiada, de tanto ser montada por gente que lhe dava instruções descabidas e contraditórias, muito antes de eu chegar…
.
.Em Idanha-a-Nova, na quinta do Marquês da Graciosa, fui encontrar um treinador do Porto, que me fez passar por uma iniciação única.
Aquela que mais se lhe assemelhou foi, sem qualquer sombra de dúvida, a experiência do primeiro galope, montada numa égua branca, que nunca mais esquecerei.
A outra sensação de voo, com um friozinho na boca do estômago, foi o nosso primeiro salto. O obstáculo parecia-me intransponível e não foi.
- Não foi, sussurrei-lhe ao ouvido, banhadas [as duas] em suores animais…
.
.Não sei se montar um cavalo é o mesmo que andar de bicicleta [e nunca se perderá o jeito…]. O que é certo é, que nunca voltei a montar aquela égua, ou outro cavalo qualquer.
Andar de bicicleta, andei. De facto, não perdi o jeito.
.
.No entanto, não me parecem experiências comparáveis. Ninguém conversa com uma bicicleta [embora, tenha feito a manutenção da minha, quando era uma rapariga a ganhar aos rapazes da rua, em corridas desenfreadas, em que as minhas pernas longas demais eram uma vantagem, sem grande esforço, que me obrigavam a trocar pneus, mudar travões, alinhar a direcção e por aí…].
.
.Não. Ninguém conquista a confiança e o respeito de uma bicicleta, como se conquista uma égua branca, nervosa e desconfiada, de tanto ser montada por gente que lhe dava instruções descabidas e contraditórias, muito antes de eu chegar…
.
.Em Idanha-a-Nova, na quinta do Marquês da Graciosa, fui encontrar um treinador do Porto, que me fez passar por uma iniciação única.
Pouco treinei no picadeiro. Passei, quase de imediato, para o meio dos campos e dos montes. E, coisa mais única, fez questão de me ensinar a tratar de cavalos. [Mal ele sabia, que acabou por me ensinar muito mais… aprendi a cuidar de todos, a saber o nome de cada pequeno artefacto, a escová-los, a ajudar a vaciná-los, a limpar a estrebaria, a ver recém-nascidos… a perder o medo e a ganhar a confiança…]
.
.Sou alérgica à maior parte do pêlo dos animais, até às penas de certas aves. Felizmente, não aconteceu com os cavalos.
Depois das aulas, durante toda a manhã, chegava de Alcains a Castelo Branco, vestia-me e lá íamos [filho e eu], rumo a Idanha-a-Nova.
Tardes inesquecíveis de outras quartas-feiras, de cheiro a cavalo e de posições de voo conseguidas!... [Não sem algumas queixas do meu rapaz, a quem os cavalos, em primeiro lugar, cheiravam a cavalo e cumpriam mal a função de meio de transporte…]
.
.Eram, mesmo, posições de voo…
Era, mesmo, a sensação de voar…
Era, mesmo, o animal e eu, feitos Um.
Eram duas criaturas, que aprenderam a confiar uma na outra, ainda que tivesse levado o seu tempo [quando o tempo não encolhia à medida que passava e todos os momentos pareciam eternos…].
.
.Regressada ao Porto, com saudades de uma égua branca, visitei todos os sítios onde podia voltar a encontrar outras éguas, outros cavalos… Impossível voar naqueles lugares estreitos e apertados. Impossível cuidar de outra égua…
.
.
[Sinto-me tão, necessariamente, urbana… mas sinto-me tão, ancestralmente, ligada à imensidão do planalto de Castelo Branco, às profundezas da Cova da Beira, aos rios e riachos, por onde o meu trisavô republicano e, ostensivamente anti-clerical, deverá ter cavalgado, quem sabe, montado numa outra égua branca, com quem conversaria, também…]
.
.
de Patricia Cohen, Foto retirada do site www.olhares.com
.
.Sou alérgica à maior parte do pêlo dos animais, até às penas de certas aves. Felizmente, não aconteceu com os cavalos.
Depois das aulas, durante toda a manhã, chegava de Alcains a Castelo Branco, vestia-me e lá íamos [filho e eu], rumo a Idanha-a-Nova.
Tardes inesquecíveis de outras quartas-feiras, de cheiro a cavalo e de posições de voo conseguidas!... [Não sem algumas queixas do meu rapaz, a quem os cavalos, em primeiro lugar, cheiravam a cavalo e cumpriam mal a função de meio de transporte…]
.
.Eram, mesmo, posições de voo…
Era, mesmo, a sensação de voar…
Era, mesmo, o animal e eu, feitos Um.
Eram duas criaturas, que aprenderam a confiar uma na outra, ainda que tivesse levado o seu tempo [quando o tempo não encolhia à medida que passava e todos os momentos pareciam eternos…].
.
.Regressada ao Porto, com saudades de uma égua branca, visitei todos os sítios onde podia voltar a encontrar outras éguas, outros cavalos… Impossível voar naqueles lugares estreitos e apertados. Impossível cuidar de outra égua…
.
.
[Sinto-me tão, necessariamente, urbana… mas sinto-me tão, ancestralmente, ligada à imensidão do planalto de Castelo Branco, às profundezas da Cova da Beira, aos rios e riachos, por onde o meu trisavô republicano e, ostensivamente anti-clerical, deverá ter cavalgado, quem sabe, montado numa outra égua branca, com quem conversaria, também…]
.
.
de Patricia Cohen, Foto retirada do site www.olhares.com