domingo, 16 de dezembro de 2007

Natal e Pietá...


.Inevitavelmente, estava a pensar no natal.
Como em todos os natais lembrei-me da mãe de Cristo e do meu encontro com a Pietá de Michelangelo, na primeira capela da alameda do lado direito, na Basílica de S. Pedro.
.E, apesar de ter anunciado um intervalo, não resisti a reviver as circunstâncias bizarras em que a vi, quando não devia ter visto, mas vi….
[É preciso antecipar que tenho uma tendência estranha para visitar obra museológica e monumental quando decorrem manobras de manutenção. Foi assim com a catedral/mesquita em Córdova… que não vi! Foi assim com o museu da Acrópole em Atenas… que não vi… Foi assim com muitos outros itens afins… que não vi! E não posso dizer que tenha viajado em época baixa, infelizmente. Sofri quase sempre as agruras de Agostos quentes e abafados e o pulular de turistas, como eu!]
Quando entrei, há muitos anos, na Basílica de S. Pedro, não era a proximidade papal que procurava, com toda a certeza, nem outras iguarias monumentais. Era mesmo a escultura da Pietá. Imaginava-a como sempre imaginei o que nunca encontrei – enorme e imponente!.Pois bem a procurei, sem saber onde a encontrar. De facto, reparei nuns imensos panos brancos, à entrada, do lado direito, mas avancei, certamente, convicta de que não iriam pôr tal escultura quase atrás da portada principal e muito menos que aqueles imensos lençóis escondiam o que eu queria ver. [Começou aí o meu Karma com as obras de manutenção em monumentos…]
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Andei perdida pela vastidão da Basílica, sem achar grande interesse em nada mais… Talvez porque não estava a encontrar o que queria? Talvez porque as pessoas me distraíam e me faziam lembrar o episódio dos vendilhões do templo [que a minha mãe contava quando era minha professora, no tempo dedicado à religião e moral, que era obrigatória… e me fazia desejar que aparecesse o verdadeiro senhor do sítio e os pusesse a correr dali para fora!...]?
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Já as minhas parceiras de viagem estavam de saída, prontas a papar mais uma visita, quando me lembrei de perguntar, na entrada, agora saída, num italiano aprendido naqueles poucos dias – mas, afinal? Onde está a Pietá de Michelangelo? O guardião do templo respondeu de forma antipática e peremptória que não podia ser vista. Estava em obras de manutenção, por detrás dos panos brancos..Não saí.
Dei meia volta.
Enfiei-me por entre os panos.
Escolhi mal a entrada.
Enredei-me e fiquei presa.
Consegui soltar-me, afogueada e claustrofóbica..Quando olhei, finalmente, estava em frente à Pietá!…
À volta, homens e mulheres de bata branca andavam de cá para lá com instrumentos que não percebi o que eram. Outros estavam sobre a escultura, do lado direito.
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Viram-me, certamente, como eu os vi. Não disseram nada. Não soube porquê. [Ou percebi, mais tarde...] Desviaram-se da escultura, suponho que para me deixarem sozinha naquele momento único de contemplação estética. [Com o passar do tempo tentei imaginar a minha descompostura, despenteada e de olhos esbugalhados, depois de lutar com tantos panos e nem sei como não os assustei… Em vez disso… não me denunciaram e partilharam o que estava escondido.]
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A Pietá era muito mais pequena do que eu a imaginava. No entanto, pouco importou a dimensão. Pouco importou o mármore branco, que deveria tornar gélidas as duas figuras.
Senti os olhos cheios de água perante a ternura da figura maternal, tão jovem e tão impotente, com um filho morto a escorrer-lhe do colo, sem esperança.
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De repente, apercebi-me da gentileza daquele grupo e que deveriam ser restauradores de obras de arte. Limpei os olhos com as costas da mão. Agradeci em italiano e deixei-me conduzir à saída e/ou entrada certa, por entre os panos..Apanhei um correctivo do guardião do templo, que vociferava palavras que não anunciavam nada de bom para mim. [Afinal, fui eu a escorraçada, não os vendilhões.]
Corri pela escadaria com o coração aos saltos, sem saber bem a razão. Roubei a Pietá? Acho que não. Mas vi-a na sua forma mais pura, destronada do púlpito, rodeada de panos brancos e sem altar!.Penso que foi a minha primeira experiência de contemplação estética. [Que nada teve a ver com o facto de a Pietá poder ser catalogada como Arte Sacra. Bem pelo contrário… com um material tão frio o autor conseguiu transmitir-me um sentimento tão humano e tão carnal – a dor maior – a morte de um filho.]
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Até hoje, continuo a admirar o gesto dos que me deixaram ficar…
Até hoje, uma obra de arte só o é, se me fizer suspender a respiração… e melhor é, se me fizer sentir um nó na garganta e um brilho húmido no olhar… se me fizer lembrar os homens e mulheres de bata branca que se afastaram para me deixar olhar!
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Michelangelo tinha pouco mais do que a minha idade [naquele tempo em que a roubei], quando aceitou a encomenda e a esculpiu, 23 anos, creio.
.Nascimento e morte… natal e pietá! ...
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