terça-feira, 16 de outubro de 2007

Espuma triste de tardes poluídas à beira-mar



.
Tenho passado horas sozinha, quando estou em casa. Compromissos meus que me obrigam a ficar. Compromissos dos meus, que os obrigam a sair. Esta solidão e silêncio contrastam com o barulho das horas que passo na escola. [Barulho inevitável, outro prescindível, outro desgastante.]
Como esta espuma, ao longe, parece outra coisa. Bem perto e bem observado, não passa de poluição.
.
Nestes últimos tempos, que foram de mudança, tenho pensado se não seria, ainda, o tempo para fazer mudanças maiores e partir para sítios [se é que existem], onde a espuma do mar ainda é branca e lembra o que é - espuma do mar!... e onde a agitação das pessoas ainda seja o que parece anunciar - a vontade imensa de comunicar e de dizer palavras cheias!
.
Apesar de ser meu costume pensar que nunca é tarde... apesar de ter sempre achado que não devemos ser escravos da nossa própria biografia... apesar de ter mudado tantas vezes, sem olhar para trás... Apesar de tudo isto, desta vez, pergunto-me se não será demasiado tarde, para inflectir ou deflectir os percursos.
.
E penso, ainda, que talvez não devêssemos trair os nossos sonhos de infância, para ficar com um punhado de espuma amarela nas mãos engorduradas pela poluição dos tempos.
Deveria ter sido freira missionária... para ir para África, inspirada nas revistas dos meus tios padres (do lado do meu pai), de Portugal de Além Mar. [Tão criança, que não percebia a ligação de tal vocação com o catolicismo banalizado, no quotidiano das quinzenas dos setembros, passados na Beira Interior.]
Deveria ter sido jornalista repórter, ou enfermeira paraquedista... para ir para África, inspirada nas primeiras grandes reportagens dos primórdios da televisão, em Portugal. [Sem perceber que iria enfiar o nariz numa guerra colonial que acabou, quando eu teria a idade para tomar alguma decisão nesse sentido... ]
Deveria ter ido para Lisboa tirar um curso superior em Antropologia... para ir para África, mas o Porto foi o sítio que escolheram para tirarmos cursos superiores!...
Deveria ter ido para África. Ponto final.
E não sei porque razão houve esta fixação por África. Nunca lá fui. Não tenho lá família [os poucos que tinha regressaram e nunca contaram as histórias da África do desejo da minha infância], nem amigos.
Agora é tarde.
É tarde para mim....
[Talvez nem sobrevivesse à primeira semana, com tanta vacina que teria que tomar e vomitar...]
É tarde para África...
[E isto é mais importante que o meu desejo adiado. Talvez não sobrevivam à espera das vacinas e dos dias de muitos amanhãs sem esperança.]
Se chorasse, por não ter desejado o suficiente, em vez de lágrimas, dos meus olhos talvez brotasse esta espuma triste de tardes poluídas à beira-mar.
.