sábado, 20 de outubro de 2007

Maldições do nosso tempo





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Quando cheguei ao Porto, a refinaria de Leixões estava no seu auge de produtividade e poluição.

Da última parte ninguém falava.

Fala-se, agora, quando o cenário é de um filme apocalíptico de uma ficção científica não muito longíncua, postecipada para os confins de um Séc. XXI, na altura, tão distante...



Mas até o meu pai dobrou o ano 2000!... Por pouco, mas conseguiu.

Também ele conviveu com a crescente decrepitude da refinaria de Leixões.
[Saudades da simplicidade do meu pai... que viu o mundo passar por ele, sem nele querer interferir mais do que o necessário, para eu poder dizer que, num heróico low profile, chegou ao Séc. XXI!]
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Convivem com este monstro de engenharia arquitectónica [ou vice-versa] pequenos campos de milho, cuidadosamente cuidados por gente de Perafita e arredores.
Os animais pastam nas pequenas leiras em pousio. Os proprietários de uma agricultura de subsistência [que o Estado teima em não querer admitir que existe e insiste em sobreviver] colhem o milho e as batatas, paredes meias com as torres desbotadas da refinaria.
Separam-nos redes de arame verde escuro, para não destoar com a cor do milho.
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Passo pela praia da Boa Nova e tenho, desde sempre, a visão destes anacronismos:
A antiga Casa de Chá, projectada pelo arquitecto Siza Vieira, cada vez mais na moda!...
Ali perto, nos rochedos, por vezes batidos pelas ondas, existe a placa com o poema de António Nobre, o poeta da praia da minha infância, aqui no Porto - Leça da Palmeira - também ela, a praia dos poemas de antanho, do livro "Só", fora de moda no seu próprio tempo...
Estes dois ícones estão bem em frente ao mar...
Depois, a imponência ignorada da Refinaria, do outro lado da estrada, com os torreões de ficção científica. Deles saiem chamas que lembram bocas redondas de dragões mitológicos. E fumos brancos, ou com várias tonalidades de cinzento, que correm pela troposfera, conforme as inclinações e a intensidade das nortadas ou do vento de nordeste.
O nevoeiro, tão frequente, torna os fumos baixos e rasantes. Tingem-se, multicolores, com a proximidade da hora crepuscular. E sempre, sempre, o cheiro pestilento. Mas as praias repletas de gente, ignorando o vento, ignorando o frio e a fumarada que existe. Porque não existe só na minha memória, de há mais de 40 anos.
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Todavia, não consigo deixar de acrescentar que estas imagens me fascinam. Se puder, este é o itinerário que escolho para vir para casa, sempre que viajo de mais ao norte [invariavelmente, ao sabor da nortada, aquele vento que enlouquece, ainda mais, os que já são loucos, como dizia a minha avó...].
E que não me canso de olhar estes torreões, as labaredas e as luzes acesas, aqui e ali, ao final do dia, quando começa a escurecer. Então dou comigo a pensar - há lá gente a trabalhar... ainda há lá gente... - talvez, à procura de um sentido patético para a existência de tal dinossáurio na (des)graça do ano de 2007.
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