quarta-feira, 26 de março de 2008

Porque as Árvores morrem de pé....



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Vim corrida pela chuva, de uma caminhada a pé, pelas imediações.
Nada de especial para ver, num dia cinzento, frio e húmido: os velhos encostados às paredes dos cafés, sem mesa para jogarem cartas, no jardim do Marquês… os transexuais pouco vestidos e enregelados, que puderam passar a correr, sem ninguém para os acossar… as mães aos berros com as crianças, porque insistiam em sair debaixo de um guarda-chuva demasiado alto para as abrigar… uma prostituta, com um cliente a reboque e um saco de plástico enfiado na cabeça, para não estragar o cabelo acabado de sair do cabeleireiro, ansiosa por entrar numa das muitas portas das hospedarias do Marquês…
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Nem me cansei.
[O cansaço sinto-o, agora, sentada e trípede, sem saber como colocar as pernas numa posição cada vez mais habitual, mas inconformada.]Vim devagar, debaixo do guarda-chuva.
Imaginei como seria bom não pensar em nada.
Coisa inconcebível, vendo bem…
[Faltou-me aprender a meditação transcendental, quando praticava Yoga… ou talvez soubesse que não seria tarefa para mim.]
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Parei para comprar maçãs. Acabou-se a compota.
Compota de maçã e lâminas de laranja. [Ninguém come laranjas cá em casa, a não ser na compota.] Farei compota, mais tarde.
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Devia ter-me afastado daqui. Em vez disso, assisti às oscilações do tempo climático, arrumei documentação em dossiers, descobri que muitos sítios onde precisava de ir estiveram fechados, até ontem.
Dediquei-me ao estudo do X-File da avaliação de docentes, com as conclusões dos grupos de trabalho da minha Escola. Pensava que ia ler coisa melhor… paciência. [Não é num interregno, de alguns dias, que nos pedem sugestões por escrito, até 1 de Abril, só pode ser mentira! Trabalharam quase dois meses para sair isto… quem sou eu para sugerir modificações de fundo? Já decidi que não vou perder tempo com tal assunto. Daqui a dois anos, estarei noutra escola e ninguém me ouviu quanto ao que me espera. E a verdade é que estes deram o seu melhor - e os outros espero que sim - e que cada escola anda à deriva, a tentar trabalhar um documento original desconforme e sem comentários!]
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Não tratei de nada fora de casa, a não ser pagar uma acção de formação, supostamente gratuita, no último dia. Mais um compromisso semanal até às 21:30…
Os exames médicos, que fiz em Janeiro, aguardavam um médico para os avaliar, agora.
Faltou-me o tempo, nas últimas semanas, para constatar que foram de férias… [Em finais de Junho, tudo o que fiz estará fora de prazo.]
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Assim, sobram-me poucos dias, para lá dos úteis, para preparar as actividades lectivas do último período. Aqui ficarei, tão parada quanto este tronco de árvore, a inventar planos de aula e, já agora, mais umas grelhas de observação e registo [e outras artificialidades, inspirada na análise apurada do X-File], diferentes das que já utilizava, a pensar no portfólio do próximo ano, em que irei ser avaliada…
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Espero não me encher de líquenes fossilizados.
Espero não me esquecer dos alunos e das alunas.
Espero não me esquecer dos amigos.
Espero não me esquecer da família mais próxima e da minha mãe, que visitei ontem [e que já não via desde o Natal… parece estar melhor do que eu!].
Espero não me esquecer da compota.
Espero não me esquecer de mim, já agora.
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Fotos de árvore há muito cortada e descoberta no domingo de Páscoa