sábado, 24 de maio de 2008

Os dias que passam... da sobrevivência e dos pequenos predadores...


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O ano lectivo está prestes a acabar…
As próximas semanas serão de despedida para os alunos de 11º ano, a seguir para os de 10º.
Na despedida, ainda há testes para fazer e corrigir, trabalhos para avaliar e outros testes para entregar.
Depois, vem a infinidade de papel para preencher e grelhas para actualizar, com as reuniões de Conselho de Turma em perspectiva.
Ainda há o cuidado especial com a minha Direcção de Turma. [- Para quem se voltou a estrear, neste novo modelo de ensino, tens cada caso!... disseram-me há dias… Até parece que sim, que teria sido de propósito. Se aguentasse esta prova do guerreiro, teria passado no teste? Esquecem-se de que não se trata disso. Trata-se, sim, de cada caso!...].
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Parece que paira um ar de suspeição, quanto à minha continuidade, ou não… nos colegas, nos alunos, na direcção. De repente, as simpatias proliferam e algumas desculpas acentuam-se, fazem-se planos para a continuidade… e eu não sei!
De momento, nem me apetece tomar qualquer decisão, de tal modo me inundam de certezas, que eu não tenho e de trabalho que tenho, de facto. [Por isso, o relógio não pára e, se parasse, era muito mau sinal. Teria desfalecido e desistido. Ponto final.]
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Pois, a mim, o que me preocupa é, precisamente a continuidade. É não ver caras novas e rostos mais frescos, para o próximo ano lectivo. É estar tudo na mesma, ou pior, dentro desta ficção, que é a continuidade! Para além disso, o cansaço redobrado, as novas madrugadas e os tempos mortos [e obras na Escola, porque há que melhorar… mas, há que aguentar horários bem piores, porque o número de salas vai ter de reduzir], cada vez mais cursos profissionais e menos filosofia para dar…
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E, eu, continuo sem me decidir, se hei-de sair ou se hei-de voltar, enquanto espero mudar de Escola para o outro ano lectivo, supostamente, mais perto do Porto, supostamente, menos burocrática, supostamente, nada disso… ou até pior!
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Nesta manhã de sábado, enquanto aguardo uma nova cadeira, mais preparada para as imensas horas que passo, sentada, voltei a cortar as pontas do cabelo, como se isso me retirasse algum do peso que sinto sobre o corpo [que é muito superior ao da gravidade… porque não carrego sacos, livros de ponto, portáteis e projectores… são eles que me arrastam pelos corredores…].
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Podia aproveitar este fim-de-semana, que se anuncia chuvoso e feio, para fazer umas posturas de Yoga, finalmente… desenrolar o colchão, que repousa perto de mim há quase dois anos. Mas, será pouco provável…
Tenho uma turma de testes para corrigir, trabalhos para avaliar, testes para fazer, grelhas para adaptar [e roupas da casa para cuidar, coisa de somenos importância, vendo bem e cada vez mais]. Alguém há-de tratar de me alimentar, mesmo quando não tenho fome… apenas, o estômago apertado e a comer-se a si próprio, certamente.
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Depois… e então, tratarei de perceber se isto é só cansaço ou doença [ou tristeza…]. Depois! Quando a azáfama acabar. Quando deixar de sentir que os dias têm um cheiro de animal predador, mesmo que seja, por razões de sobrevivência partilhada.
Tenho o mês de Junho, em que ficarei um ano mais velha, para decidir se vou, se fico, se quero, se não quero [quando a pergunta também é: se aguento, se não aguento… e, isso, eu não sei… e muito mais!].
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Talvez consiga ler algum dos livros que me esperam, silenciosamente pousados nas prateleiras, para onde nem olho, porque quem me alimenta também se encarrega de lhes tirar o pó, que eu já não tiro, porque não tenho tempo e porque nem os quero ver.
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Não é uma sensação de depressão, daquelas que apelariam a psicotrópicos e afins. Não é. [Embora, seja típica a recusa a quem deles precisa...] As razões dos meus impasses são demasiado objectivas, têm nomes, têm rostos, têm motivos, enfim, serão do domínio do quantificável, até!...
Por isso, o refúgio tentador dessas panaceias não resultaria em qualquer melhoria.
Durante anos, fui os ouvidos de tantas razões semelhantes às minhas!... E era tão mais simples, advogar em causa alheia!... As minhas palavras eram bálsamo para ouvidos, que não os meus. Agora, por muito que tente repeti-las, não me assentam. Não me vestem. Não me cabem. Não são o meu número!
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[Mudei tanto, assim, em tão pouco tempo? Se, nem eu, me reconheço mais, sem precisar de confirmar nos espelhos, para os quais pouco olho… e mesmo que olhasse, de que me serviria? Os duches matinais são a correr e sem óculos. Vejo uma mancha vaga e misturada com vapor… Saio de casa, a correr, para não ultrapassar velocidades proibidas, na estrada.]
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de Isaurinda Brissos em www.olhares.com, Pequenos predadores dos dias que passam