domingo, 27 de abril de 2008

À Flor dos meus dias...



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Ontem, acordei cedo demais [como agora costuma acontecer, mesmo quando podia recuperar sonos atrasados…], sem qualquer vontade de escrever, o que me pareceu estranho.
Por isso, percebi o imenso cansaço do corpo, mais do que é habitual e a tristeza que se lhe associa, também.
Certo é, que passei o feriado a trabalhar debaixo de um sol abrasador, de fato de macaco vestido e pouco mais.
Os painéis, para serem intervencionados, podiam estar à sombra, mas não. Estavam debaixo do sol tórrido e quase inesperado do dia 25 de Abril.
Custou muito mais. Tudo tem que custar muito mais [pareceria kármico, se não tivesse sido igual para todos.]A cola secava com tal rapidez, que seria impossível fazer as colagens sozinha…, mesmo que quisesse, mesmo que pudesse.
Pouco tempo para pensar.
Muito tempo para piorar…
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Missão cumprida e regressámos.
Outras missões por cumprir me aguardavam. Os feriados obrigam-me a fazer os testes, para os alunos, com muito mais antecedência e a preparar as aulas de revisões, para algumas turmas, antecipadamente. [Já dei comigo a pensar que preferia não ter feriados, para não perturbarem as minhas planificações…]Depois, não sei como é que faço, porque é que o faço, mas há anos que passo os feriados a trabalhar.
Se me deu prazer, o que fiz no 25 de Abril? Se senti que era 25 de Abril?
Foi tudo tão debaixo de sol e tão doloroso que não senti nada. Apenas, uma imensa vontade de acabar e regressar.
Num determinado momento, talvez tenha sentido saudades da juventude, contemporânea desses dias de Abril, em que tudo parecia ser, ainda, possível.
Desses dias em que dizer, quando for amanhã… tinha um significado próximo da forma como digo [cada vez menos] se fosse hoje, teria feito…, teria dito…, teria…
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Sábado, acordei cedo e tratei de passar pela farmácia antiga, à espera de conselhos que não tive, porque a farmacêutica não estava.
Mesmo assim, porque a experiência me ensinou, à custa de ser experiência, tratei de trazer o que preciso para combater os venenos e os efeitos, de todas as purgas que o médico me receitou. Largo espectro!... Mata tudo, indiscriminadamente, estupidamente, sempre a avançar… na matança. No final, fica um rastro de dizimação fisiológica que dá pena.
Pois foi uma pena, não ter faltado dois dias, para curar uma virose, que passaria, sem ter apanhado todo aquele frio e aquela chuva, a começar de madrugada… e a chegar bem à noite.
Também foi uma pena, ter apanhado o sol aberto que lhe sucedeu, quando fui avisada, aqui em casa, da probabilidade de ser como foi.
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A Marta, no seu blog, colocou um desafio, para mim e para outros, que eu deveria reenviar, tentando perceber porque fazemos blogs
No que me diz respeito, Marta, é talvez pela mesma razão que me fez não escrever nada, desde quarta-feira... e, pela mesma razão, me fará escrever hoje.
É das poucas coisas que faço, ou não faço, porque me apetece. E há tanta coisa que não me apetece e outras que me apetecem cada vez menos e que faço, com um sentido de obrigatoriedade ética, quase kantiano!... [que, assim, vou escrevendo, quando me apetece].
Da mesma forma, entendo que será a razão porque os outros o fazem e não os desafiaria para responderem a tal desafio[porque é o prazer de os ler, quando lhes apetece escrever, que me faz voltar e comentar, assim, quando me apetece].
Quanto ao teu blog, Marta, é a tua escrita juvenil que me faz gostar de te ler, atenta a questões do mundo e dos viventes, apesar da tua pouca idade cronológica e por isso mesmo.
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Quando fiz quarenta anos, comuniquei a todos que tinha chegado o momento de privilegiar a vontade. Tinha chegado o tempo de dizer que – não – a obrigatoriedades desnecessárias e para cumprir calendário, ou as vontades egoístas dos outros.
Durante pouquíssimos meses, andei iludida, nesta tola convicção [aliás, muito mal acolhida e compreendida, pelos que me eram mais próximos, o que me surpreendeu e hoje, não me surpreenderia!... “A roubar… é à família!...” – comentava a minha avó, com o seu cinismo tão perspicaz…].
Rapidamente, percebi que, não se tratando de egoísmo meu, mas da expressão de um cansaço ao qual me queria poupar, a mim e aos outros [nunca fui boa companhia contrariada], as obrigatoriedades não diminuíram. Pelo contrário, foram crescendo, exponencialmente e, pouco a pouco, tornaram-se incontroláveis, para mim.
Restou-me começar a apontar os compromissos, em agenda própria para o efeito e obrigar-me a consultá-la, várias vezes ao dia.
É o que continuo a fazer… Por isso, sei – sempre – que o tempo não está a meu favor e o pouco que faço, porque me apetece, não estando anotado na dita agenda, é um extra que pago caro, mais cedo, ou mais tarde.
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Alguém poderia opinar, muito sensatamente, que deveria criar um espacinho na agenda, para o que me apetece… Sorrio, sozinha, pois então!...
Ora, o que me apetece é deitar fora a agenda!
O que me apetece não vem à flor dos meus dias… lamentavelmente... [mas só para mim, que sendo única, sou apenas uma… e os números, nas suas diferentes acepções e utilizações, são de uma evidência escandalosa, ameaçadora, mesmo.]Depois, penso em todas as mulheres de vermelho, de que falava o Herético, no Relógio de Pêndulo, com o emprego a prazo, quando o têm e sem direito a vontades e apetites… e relativizo.
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[Relativizar, parece ser o que melhor faço, sem precisar de espaço e tempo na dita agenda, cada vez com menos vontades e apetites… e com as mãos cheias de nadas, que encheriam as mãos de outros, certamente. Mas não enchem as minhas…]
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25 de abril de 2008, Fotos para um cartaz bem suado a dois