terça-feira, 22 de abril de 2008

Para que lado tomba?


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Não sei bem porquê…
Cheguei da Escola com vontade de fazer balanços.
Entretanto, o cansaço venceu-me e deitei-me no sofá, disposta a dormir sonos da véspera, como sempre.
Tirei o som à televisão, em frente, mas não dormi. [Também não me lembro do que vi no écran.]
Não estava nos meus planos escrever nada, sequer.
Quando muito, se recuperasse, talvez me decidisse a corrigir alguns trabalhos de alunos [de qualidade bastante duvidosa, mas assíduos, na tarefa].
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Acho que, sem me dar conta, tratava de fazer os tais balanços, enquanto o corpo deve ter descansado [apenas, pela postura – horizontal…].
Para que lado tomba a nossa avaliação das situações? Deve ser por isso que se chamam balanços.
Para que lado tomba a minha?
Para que lado?
Qual dos lados?
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De repente, sinto-me bem mais dicotómica do que me julgava ser.
[Será das companhias, será…]Parece-me que só há dois lados e não me encaixo no meio-termo.
Não sinto que exista um lado para cima, por onde possa iniciar um movimento em espiral. [Recuso-me a pensar no lado de baixo, com sete palmos de terra!]
Só parecem existir dois lados:
Ou insisto em fazer o que tenho andado a fazer…
Ou desisto…
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Estou como este monólito branco, com algumas manchas de sujidade. Não consigo ser tão invulnerável quanto desejaria.
Sofro as influências dos lugares e das pessoas, como qualquer criatura viva. Passam por mim e deixam marcas.
Não deixam pinceladas artísticas…
Nem eu, com estes traços de usura, consigo desenhar nada mais criativo do que aquilo que é [marcas de mãos sujas, raspões sem intenção, cores indefinidas da passagem dos outros e do tempo].
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Espero que acabe [o melhor possível] o ano lectivo. Continuo a preparar aulas e tudo o que as acompanha…
E, talvez [se calhar], a proximidade da primeira vaga de testes tenha sido a razão, mais próxima, para esta urgente vontade de fazer balanços.
Quero isto para os meus dias futuros?
Vou manter-me de pé [mais ainda, sem arredar pé], vestida de um branco cada vez mais sujo, pelas máculas inevitáveis de ter decidido insistir e não desistir?
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Porquê hoje, outra vez, numa sensação que não é nova?
Será a proximidade dos testes…
Será a proximidade
Será…
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Alguém, há muitos anos, me disse que eu tinha uma visão demasiado estética da filosofia. Estendeu-a à visão do mundo [afinal não acrescentou grande coisa…]. Pelo tom com que foi dito, não entendi que se tratasse de um elogio.
Aliás, pareceu-me mais uma praga rogada, como uma bofetada, na cara.
Devo ter feito de conta que não ouvi.
Utilizei essa táctica, da surdez selectiva, frequentemente [talvez inspirada no meu pai, cuja falta de audição nunca me convenceu, mas também fiz de conta… e punha a minha mãe em fúria], deixei as palavras no ar, mas não voaram com o vento.
Não as esqueci.
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Mesmo não sendo um elogio, também não foi uma inverdade. E, o que me leva a revisitá-la, é que me faz falta, essa suposta visão estética do mundo.
Certamente, era eu que a construía…
Certamente, era eu…
Certamente…
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Esforço-me por reencontrá-la, nos mais pequenos detalhes, apesar do sono, do cansaço e das manchas de sujidade, numa superfície originariamente branca [onde tudo poderia ser inventado, escrito, pintado, desenhado, modelado…].
O problema deste balanço é descobrir uma lição que eu deveria saber de cor.
A lição é, tão simples…
Não era preciso qualquer esforço.
O esforço seria a morte dessa suposta visão estética do mundo [não do meu mundo, mas do Mundo, pensado à maneira da filosofia].
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Bastava imaginá-lo, bastava senti-lo, bastava estar, bastava ser.
Balanço por acabar, já não basta!
E não há esforço que me faça voltar a ter esse trágico defeito: um pensamento estético sobre o mundo e sobre tudo o que este conceito imenso e vasto possa abarcar.
E isso, não se aprende. É assim, nada de elogioso, sobre mim…
Pelo contrário, aprendi que fui capaz de o esquecer [e não sei o momento em que tal aconteceu, ou foi acontecendo…].
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[Mas, como sinto a falta desse defeito, meu!...]
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Foto de coluna, originariamente branca