terça-feira, 15 de julho de 2008

Do nome da rosa...


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Hoje, resolvi esquecer-me do tempo, das horas, dos minutos e dos segundos.
Talvez, porque tenha acordado com os compromissos dos outros e descobri que não tinha nenhum! [Terei muitos… mas, por hora não.]
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Não tive sono, não me lembro de ter sonhado…
Também não senti vontades especiais. [E, ainda bem, o calor teria dado cabo de mim, caso me decidisse por aventuras fora de portas…]Mas, saí. Por pouco tempo.
Não. Não fui andar a pé para manter a forma [aquilo que o meu pai chamaria, de passeio higiénico, numa linguagem tão fora de moda, como o meu próprio pai…].
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Cruzei-me com a minha velha conhecida sem abrigo. Uma memória viva, desde o primeiro dia em que vim morar para o Marquês e resolvi fazer uma prospecção pela zona. [Aliás, passeio de que ainda hoje me recordo… o Marquês era um microcosmos, onde se podia encontrar tudo… tal como a encontrei a ela.]
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Tinha deixado as suas coisas, displicentemente, como de costume, perto da confeitaria onde vou comprar pão [quando sou eu que vou comprar pão!]. Chamaram-me a atenção uns sapatos em tons de rosa, com pedrinhas coloridas e um ligeiro tacão. Contrastavam com o aspecto cada vez mais masculino, que o tempo foi revelando e ajudando a consolidar.
Fiquei parada, a olhá-los e a vê-la, ao longe, mais calma hoje, do que nos outros dias. Pensei… Espero que não lhos roubem!
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Nos últimos tempos, tem gestos muito repetitivos, de quem tenta arrancar a pele. Parasitas, sujidade, podia ser. Parece-me que não é. Ou não é só… Nunca andou acompanhada. Dantes falava sozinha. Agora, já não fala. Também nunca a senti agressiva.
Agora, apenas, sorri… Um sorriso estranho, que não se dirige a ninguém. [Já se dirigiu a mim, há muitos anos atrás… quando eu tinha a sensação de que só me via a mim.]
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Esta mulher faz parte dos meus dias. Apesar da pele curtida, pelo frio e pelo calor, deve ter a minha idade. E o que é mais bizarro, que me custa a admitir, naquele não diagnosticado e provável autismo, é que parece feliz… Há dias em que irradia uma imensa felicidade, que me constrange. Como me constrange, quando a vejo a tentar arrancar-se de si própria.
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Das poucas compras que fiz, nada lhe seria útil. Enquanto contornei mais um quarteirão, para me proteger do sol e andar pela sombra, pensei nisso.
Nada do que vinha nos sacos de plástico lhe faria falta, na devastadora liberdade de quem não tem que tratar de um corpo, de um filho, de uma casa, de um quotidiano. Talvez os sacos de plástico… apenas.
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[Lembrei-me do romance de Umberto Eco: também eu, nunca conheci o Nome da Rosa…]
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.em www.olhares.com de M. Rosário António, foto de uma rosa