sábado, 12 de julho de 2008

Um ar de música...



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O meu filho saiu, cedo. Mais um exame.
O meu jovem vizinho ainda não acordou, para me presentear com os seus exercícios no piano.
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Nestes anos, nesta casa, começou por ser o som irritante das escalas repetidas, vezes sem conta, hesitantes e desastradas… com pequenos trechos simples… até se ouvirem peças inteiras, cada vez mais seguras e soltas.
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Ao mesmo tempo, o meu filho agarrava-se à guitarra eléctrica e fazia o mesmo. Foi melhorando, começou a compor. E a rua aguentou os primeiros passos destes jovens talentosos e promissores. [Só o vizinho se dedicou, a tempo inteiro, à música… ]
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Com as janelas abertas, para o Verão, a música ouve-se, mais nítida. Também deve estar em época de exames, no Conservatório, provavelmente.
Dou comigo a pensar que foi bom ter tido a paciência de esperar.
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Acho que sei, porque penso ser um jovem vizinho e não uma jovem vizinha. [Nunca o vi. Só o ouço. Mora no alinhamento da minha casa…]Num dos prédios das traseiras, viveu um grupo de raparigas que se dedicava ao Belo Canto. Nesta altura do ano, vinham para a varanda exercitar os seus trinados… e o piano parava… e elas riam e voltavam para dentro, no final. Depois, o piano respondia. Convenci-me, assim, que era um rapaz.
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Mas, as raparigas mudaram-se e o meu vizinho continuou a tocar no seu piano. Faz-me companhia em muitas tardes. Sinto-lhe a falta quando não está.
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Houve dias em que chegámos a bater-lhes palmas… pela evolução, pela persistência…
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[Aguardo que acorde e recomece. Que obras irei ter o prazer de ouvir? De repente, lembro-me do exame do meu filho… Talvez esteja, também, a prestar provas, nesta manhã de sábado. Que lhes corram bem!...]
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de António José Sousa de Almeida, Foto de www.olhares.com